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A gente só recitava poesias de subversão, diz poeta baiana

“A gente só recitava poesias de subversão”, diz poeta baiana

No final dos anos 70, em plena ditadura militar, um grupo de jovens poetas decidiu se reunir em praça pública para declamar suas poesias e desafiar a repressão. Foi assim que surgiu o movimento Poetas na Praça, formado por uma série de estudantes da Bahia que decidiram transformar a poesia emimportante marco de resistência política, cultural e social.

Uma das dez fundadoras desse movimento foi a poeta Ametista Nunes que, no início, era a única mulher do grupo. “Em 1979, quando a gente começou, era exatamente na época da ditadura, momento em que poesias eram proibidas, músicas eram proibidas e os artistas eram todos proibidos, exilados ou mortos. E a gente também sabe a história de muitos que foram assassinados ou desaparecidos”, disseela.


Salvador (BA), 06/08/2026 - A poeta Ametista Nunes participa do sarau Movimento Poetas na Praça: Poesia, Política e Pedagogia na Salvador dos Anos 1980, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, na Casa Motiva - Vale do Dendê. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A poeta Ametista Nunes participa da 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – Flipelô, em Salvador – FotoRovena Rosa/Agência Brasil

Segundo Ametista, o movimento praticava uma espécie “de desafio” às autoridades da época porque acontecia justamente em frente ao prédio onde se encontra a sede da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, na região da Praça da Piedade, uma praça histórica de Salvador “onde os escravos foram enterrados”.

“Lá a gente recitava [os versos] e eram só poesias de subversão. Era de provocação mesmo, a gente provocava bastante”, ressaltou.

Em entrevista à Agência Brasil, Ametista destacou que a poesia, naquela época, serviu como importante instrumento de resistência. E que a arte continua sendo fundamental para os tempos de hoje.

“Ou a gente entra com a arte nesse processo social ou nunca vai mudar as mentes. Nem os corações”, disse ela, logo após acompanhar uma mesa realizada na Casa Motiva para discutir o legado do Poetas na Praça.

Popularização

Ao debater a importância do movimento na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), a poeta Semírames Sé, uma das principais vozes femininas do Poetas na Praça, ressaltou que a provocação era uma característica constante daquele grupo. “A poesia foi sempre uma batalha, foi sempre nosso grito de utopia, o nosso grito de igualdade, fraternidade e comunhão. Foi assim quecheguei àPraça da Piedade”, contou.


Salvador (BA), 06/08/2026 - Os poetas Douglas de Almeida e Semírames Sé participam do sarau Movimento Poetas na Praça: Poesia, Política e Pedagogia na Salvador dos Anos 1980, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, na Casa Motiva - Vale do Dendê. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Douglas de Almeida e Semírames Sé na 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – FotoRovena Rosa/Agência Brasil

Além de gritarpela democracia, esses jovens também ajudaram a popularizar a poesia, destacou Douglas de Almeida, que integrou o movimento. “Antes, a poesia era inatingível. Mas o que é que esses poetas fizeram? Eles popularizaram esse gênero literário com uma linguagem mais coloquial, mais urbana, mais irônica e direta para os transeuntes lá da Praça da Piedade. Essa foi uma grande vitória do movimento”.


Salvador (BA), 06/08/2026 - O poeta Douglas de Almeida participa do sarau Movimento Poetas na Praça: Poesia, Política e Pedagogia na Salvador dos Anos 1980, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, na Casa Motiva - Vale do Dendê. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O poeta Douglas de Almeida fala nosarau Movimento Poetas na Praça: Poesia, Política e Pedagogia, na Flipelô, em Salvador – FotoRovena Rosa/Agência Brasil

Outra grande conquista foi o aspecto pedagógico ou educacional, ressaltou Almeida. “A gente também fez um trabalho editorial porque grande parte das pessoas não tinhao hábito da leitura. Os poetas começaram a fazer antologias não apenas com seu poema autoral, mas com o de outros poetas como Manuel Bandeira ou Cecília Meireles. Então, de certa forma, a gente estava divulgando a poesia brasileira”.

“Quando a população se acercava da praça, ela terminava tendo um mundo gigantesco. A praça tinha essa riqueza de levar poesia à população que não tinha nem o hábito de leitura”, afirmou o poeta.

E nem só de poesia subversiva viviam aqueles poetas. “Mesmo revolucionários e que se dedicavam contra a ditadura e a censura, eles ainda tinham o tempo para fazer poemas de amor”, contou Almeida. “Quanto mais amor se gasta, mais bonito o amor brota”, poetizou.

Flipelô

A Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) é considerada a maior da Bahia. Neste ano, o evento chega à sua décima edição e a expectativa dos organizadores é de que mais de 250 mil pessoas possam aproveitar a programação cultural, que ocorreaté o próximo domingo (9).

Mais informações sobre a Flipelô podem ser acessadas emseu site oficial

* A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

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